Os tuaregs são um grupo étnico da região do Sahara, que falam uma língua berber. Se auto denominam Kel Tamasheq ou Kel Tamajaq ("falantes de Tamasheq"), e também Imouhar, Imuhagh, ou Imashaghen ("os livres"). É uma civilização bem curiosa. Estima-se que existam entre 100000 e 3,5 milhões nos vários países que partilham aquele deserto. O texto abaixo, é uma belíssima entrevista realizada pelo jornalista catalão Victor M. Amela, com o tuareg Moussa Ag Assarid, que publicou na França o livro: "Não Há Engarrafamentos No Deserto!"
Entrevista de um Tuareg
Não sei a minha idade. Nasci no deserto do Saara sem documentos .
Nasci em um acampamento de nômades Tuaregs entre Timbuctu e Gao, ao norte de Mali .
Fui pastor de camelos, cabras, cordeiros e vacas do meu pai. Hoje estudo gestão na Universidade de Montpellier. Estou solteiro. Defendo os pastores Tuaregs. Sou muçulmano, sem fanatismo .
- Que turbante, tão formoso .
- É uma fina tela de algodão, permite tapar o rosto no deserto e, continuar a ver e respirar através dele .
- É e um azul belíssimo!
- Nós os Tuaregs, somos chamados de homens azuis por isso; o tecido solta alguma tinta e nossa pele adquire tons azulados .
- Como conseguem este tom de anil ?
- Com uma planta chamada índigo, mesclada com outros pigmentos naturais. Para os Tuaregs o azul é a cor do mundo .
- Por quê ?
- É a cor dominante. É a cor do céu, do teto da nossa casa.
- Quem são os Tuaregs ?
- Tuareg significa "abandonado", porque somos um velho povo nômade do deserto, solitários e orgulhosos. " Senhores do deserto", é como nos chamam. Nossa etnia é a amasigh ( bereber ) e o nosso alfabeto, o tifinagh.
- Quantos são ?
- Uns três milhões , e a maioria permanece nômade. Mas a população diminuiu .
“ É preciso que um povo desapareça para que saibamos que ele existiu", apregoava um sábio. Eu luto para preservar este povo .
- A que se dedicam ?
- Pastoreamos rebanhos de cabras, camelos, cordeiros, vacas e asnos, num reino de imensidão e silêncio.
- O deserto é realmente tão silencioso ?
- Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se o batimento do próprio coração. Não há lugar melhor para se estar sozinho .
- Quais recordações de sua infância você conserva com mais nitidez ?
- Desperto com a luz do sol e ali estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as levamos onde há água e pasto… Assim fizeram meu bisavô, meu avô e meu pai….e eu. Não havia outra coisa no mundo além disso. E eu era muito feliz com isso .
- De fato! Não parece muito estimulante…
- Mas é muito! Aos 7 anos já te deixam afastar-se do acampamento para que aprendas coisas importantes: farejar o ar , escutar , apurar a vista , e as estrelas …
E a deixar-se levar pelo camelo. Se você se perder, ele o levará onde há água .
- Saber isso é valioso, sem dúvida …
- Ali tudo é simples e profundo. Existem muito poucas coisas. E cada uma tem um enorme valor!
- Então esse mundo e aquele são muito diferentes ?
- Ali cada pequena coisa te proporciona felicidade. Cada toque é valorizado. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos e estarmos juntos. Ali ninguém sonha com chegar a ser , porque cada um já o é .
- O que mais o chocou em sua primeira viagem à Europa ?
- Ver as pessoas correndo pelo aeroporto. No deserto só se corre quando vem uma tempestade de areia. Me assustei, é claro!
- Eles iam apenas buscar suas malas…
- Sim! Era isso. Também vi cartazes de mulheres nuas. Me perguntei: por que esta falta de respeito para com a mulher? Depois no Íbis Hotel, vi a primeira torneira da minha vida, vi a água correndo e senti vontade de chorar …
- Que abundância! Que desperdício, não?
- Todos os dias da minha vida consistiam em procurar água. Quando vejo as fontes ornamentais aqui e acolá, continuo sentindo por dentro uma dor tão intensa …
- Tanto assim ?
- Sim! No começo dos anos 90 houve uma grande seca. Morreram animais e nós também adoecemos. Eu tinha uns 12 anos e minha mãe morreu. Ela era tudo para mim! Me contava histórias e ensinou-me a contá-las muito bem . Ela me ensinou a ser eu mesmo .
- O que sucedeu com a sua família ?
- Convenci meu pai que me deixasse ir á escola. Quase todo dia caminhava 15 km. Até que um dia o professor me arranjou um lugar para dormir e uma senhora me dava o que comer, quando eu passava em frente a sua casa. Entendi que esta ajuda vinha da minha mãe .
- De onde surgiu este desejo de estudar ?
- Uns dois anos antes havia passado pelo nosso acampamento o rally Paris- Dakar, e uma jornalista havia deixado cair um livro da sua mochila. Eu o apanhei e o entreguei. Ela me deu o mesmo de presente. Era um exemplar do Pequeno Príncipe e eu me prometi que um dia consiguiria lê-lo .
- E conseguiu ?
- Foi assim que consegui uma bolsa de estudos na França.
- Um Tuareg na Universidade!
- Ah! O que mais sinto falta aqui é o leite de camela… E o calor da fogueira, e de andar com os pés descalços na areia quente. Lá nós olhamos as estrelas todas as noites e cada estrela é diferente das outras como cada cabra é diferente. Aqui á noite, você olha para a TV.
- Sim! E o que você acha pior aqui ?
-Vocês tem tudo, mas não acham suficiente. Vocês se queixam. Na França passam a vida reclamando! Aprisionam-se pelo resto da vida a uma dívida bancária, num desejo de possuir tudo rapidamente …
No deserto não há congestionamentos e você sabe por quê? Porque lá ninguém quer ultrapassar ninguém!
- Conte-me um momento de extrema felicidade no seu deserto distante .
- Todo dia, duas horas antes do pôr-do-sol, a temperatura abaixa, mas ainda não chegou o frio , e os homens e os animais , lentamente voltam para o acampamento e seus perfis são recortados em um céu cor-de-rosa, azul, vermelho, amarelo, verde…
- Fascinante, na verdade …
- É um momento mágico. Entramos todos na cabana e colocamos o chá para ferver. Sentámo-nos em silêncio a ouvir a ebulição… A calma invade todos nós e o nosso coração bate no ritmo da fervura…
- Que paz!
- Aqui vocês tem relógio, lá nós temos o tempo!

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